Violência e morte: a hecatombe de Jatobá

A chacina resultante dos conflitos políticos na Tacaratu de 1885, é um retrato da acirrada disputa eleitoral vivida em Pernambuco no final do século IX.

No Brasil Império, o Partido Conservador manteve-se no poder na Província de Pernambuco de 1885 a abril de 1888, desbancando o Partido Liberal. 

Em outubro de 1885 , assumiu o governo de  Pernambuco o conservador  José Fernandes da Costa Júnior,  que tinha em Jatobá o Cel. Francisco Cavalcante como agente eleitoral.  O novo governador destitui o delegado que atuava em Tacaratu há três anos e nomeia para o cargo um sobrinho de Cavalcante.   

O novo delegado, temido na cidade pelo cometimento de inúmeros crimes, esteve foragido e retornava com sede de vingança, segundo texto abaixo extraído do Jornal do Comércio em sua edição 63 de 04/03/1886 (reproduzindo matéria do jornal Província de 20/02/1886):

“ (…) Quando Cavalcante com numeroso séquito armado fez a sua “entrada triunfal” na Vila, esta já estava em grande parte despovoada: nas poucas casas habitadas houve um… Fecha! Fecha!..de terror!”

“E começou então, quase sem interrupção de um dia, uma série de violências e atentados de toda a ordem, nas ruas, nas feiras, em pleno dia e sob as vistas das próprias autoridades judiciárias, impassíveis, sob pena de serem elas mesmas igualmente vítimas”.

Jornal do Comércio-RJ, número 63 de 04/03/1886

Consta que famílias inteiras abandonaram a vila e que um júri foi convocado poucos dias depois em 15/10/1885. O novo delegado e seus comparsas saíram todos incólumes de três processos julgados no mesmo dia naquele tribunal do juri, sendo ablsolvidos um total de 22 pessoas (Jornal do Commercio RJ de 28.04.1886). Segundo o jornal, tais fatos corroboravam para a acusação de que o Governador da Província não dava ouvidos às queixas que lhe chegavam, numa clara preparação de terreno para as eleições que se sucederiam em nível local.

De fato, tudo parece concorrer para essa conclusão, já que na véspera da eleição de 15 de janeiro, consta que Cavalcante e sua turma proporcionaram uma verdadeira noite de terror ao povo de Tacaratu, sitiando a cidade, invadindo residências e roubando títulos de eleitor.

“ Um grupo desses sequazes de Cavalcante assaltaram alta noite as casas habitadas por liberais, arrombando portas, batendo noutras, em algazarra , insultos e provocações insólitas; a própria casa de juiz de direito onde estava hospedado o candidato liberal , não foi poupada, e aí só o arrombamento da porta deixou de ser praticado”.      

O Jornal do Recife de 23/01/1886  reproduz o seguinte excerto de publicação de 22/01/1986 do Jornal A Província (vinculado ao Partido Liberal):

“ A comarca de Tacaratu está fora da lei. São inúmeros os espancamentos e outras violências que nela se tem dado  e estão impunes. No dia da eleição geral postou-se gente armada nas estradas, para impedir que votassem os eleitores liberais”.  

Ainda na referida edição citada no Jornal do Commercio-RJ em seu número 63 de 04/03/1886, temos que:  

“ Acaba de ser barbaramente espancado  em plena rua de Jatobá, o Capitão Ignácio Gomes de Carvalho, suplente do juiz municipal e membro da mesa eleitoral no dia 15 de janeiro, pertence ao partido liberal e é geralmente estimado”. 

A motivação para esse espancamento, segundo discurso proferido na Câmara de Pernambuco por Antonio de Siqueira (candidato liberal derrotado nas últimas eleições), era que o Capitão Inácio remetera dois requerimentos da população da Vila de Tacaratu solicitando providências contra os desmandos cometidos durante a eleição. 

Segundo o deputado, o Coronel espancado tinha sob sua proteção seu primo Cypriano Queiroz, um refugiado da polícia, que tratou de montar um grupo  em ataque ao mandante do espancamento.  De acordo com  o inquérito policial apresentado,  o grupo de Cypriano recebia apoio de  Francisco Vicente da Cunha Valpassos,  Antonio Gomes Correia da Cruz, José Jovino Marques e Guilherme Gomes de Araújo, todos desafetos do Cel.  Francisco Cavalcante. Ainda segundo  Siqueira, no Brejinho, o fazendeiro Francisco Pereira apoiava o grupo noticiando  tudo que se passava com o Cel. Cavalcante, que tinha casa em Jatobá, distante 3 km apenas do Brejinho.

Após essa série de acontecimentos, o filho de Cavalcante sofreu uma emboscada, mas conseguiu sair com vida. O Coletor Provincial, José Gomes de Sá Araújo, amigo de Cavalcante, foi assassinado noutra investida. Todas essas ações sob o comando de Cypriano Queiroz. A essas alturas, esperava-se um ataque a Jatobá, onde o Cel. Francisco Cavalcante morava. Temendo por sua vida, o coronel, em outubro, dirige-se à capital da Província para pedir proteção.  

A onda de violência continuava, até que em 4 de dezembro chega a Tacaratu uma força de linha do 2º batalhão de infantaria com 50 homens, a fim de garantir a tranquilidade. Mas nada detinha a sede de vingança do orgulhoso capitão ferido em seus brios. Assim, Inácio traça os planos com o primo e “reúne gente e manda avisar a Cavalcante que estivesse em alerta, pois em dia e hora determinados lhe tomaria a porta”.

Francisco Cavalcante não era rico, mas influente e, pelos relatos da época, era um homem temido: detinha a patente de tenente-coronel, foi delegado de Tacaratu e 1º suplente de juiz municipal (Jornal do Comércio-RJ em sua edição 163 de 13.06.1886) e conseguia emprego na Estrada de Ferro para seus apadrinhados. Tendo empregado, inclusive, um de seus filhos.

Cavalcante parece mesmo ter se mantido envolvido em conflitos políticos e de terras permanentemente. Através de relatos na seção de cartas do Jornal do Recife, percebe-se que ele tanto perseguia como era perseguido.  

Existem histórias de perseguição aos índios, espancamento, proibição de rituais, rapto e defloramento de mulheres e meninas infligidos por Cavalcante  para imprimir o terror que lhe rendia terras. Assim nos apresenta o sociólogo Arruti, através de depoimentos constantes de sua obra  “O reencantamento do mundo: trama histórica e arranjos territoriais Pankararu”, como o que se segue:  

“Então esse Cavalcante chegou aqui se engraçando das índias, batendo nos índios, e o pessoal correram pro Ouricuri. O pessoal mais velho foi embora e adepois os filhos foram voltando, uns voltaram e outros ficaram lá, aquele pessoal mais velho que ficaram envergonhado de tê apanhado…,”  

Assim, ao que parece, não foi difícil reunir todos os desafetos do coronel em torno de uma  vingança, afinal, cada um tinha seus motivos. Tudo leva a crer que os índios também faziam parte do grupo chefiado por Cypriano. Em nota do Jornal do Commercio (RJ) de 17/12/1888 temos o seguinte desfecho do caso: 

“[…] o Sr. Cypriano de Queiroz,capitaneando um grupo de conservadores dissidentes, na madrugada do dia 11, atacou a fazendo do Cel. Francisco Cavalcante perto da cidade de Jatobá.  Houve luta e tiroteio durante 8 horas . 

Morreram, além de Coronel e de seu filho mais velho, o chefe dos assaltantes, Cypriano de Queiroz,  e entre os feridos que são muitos encontram-se uma filha e a mulher de Cavalcante.” 

Em outra nota na mesma página, mesmo indicando esse número como exagerado,  registra-se a ocorrência de 17 mortos no conflito. No entanto, pelo que relata Albuquerque,  o número parece mesmo ser até maior do que esse. Consta que Inácio conseguiu fugir levando consigo um grupo de 13 homens. Cypriano não conseguira escapar, tendo sido apanhado pelos soldados e demais homens de Cavalcante que haviam saído para almoçar. Antes de ser morto teve os olhos furados para que delatasse o paradeiro dos demais.  Não revelou, contudo os desertores foram localizados. Estavam escondidos nas grutas da  cachoeira, esconderijo muito provavelmente sugerido pelos índios do grupo, visto ser cachoeira local extremamente familiar a eles.

Certamente, sentindo que não haveria saída e tendo avistado um parente seu em meio à tropa, Inácio, após a concordância dos demais companheiros, deixou o esconderijo e se entregou, sendo seguido pelos demais. Um a um foram todos trucidados ali mesmo. Exceto dois, Félix Pita e Pedro Zungão, que, desconfiados das promessas de garantia de vida, saltam nas águas da cachoeira e, com bastante sorte, conseguem chegar ao lado baiano do rio.   

Esse violento episódio se desdobrou em retaliações e perseguições entre conservadores e liberais locais, além de muitos debates na Câmara Estadual. Tais acontecimentos mereceram destaque na imprensa por longo período, alimentando ainda mais o ódio existente. 

Como se pode ver, a fama de pleitos eleitorais nada tranquilos na região vem de longe. 

Referências

Pesquisa: Paula Rubens

PETROLÂNDIA, A CAPITAL QUE FOI SEM NUNCA TER SIDO

A formação de um país unificado  e integrado ao comércio internacional,    a comunicação entre as províncias  e destas para os portos e vice e versa , além da ocupação dos espaços demográficos vazios, se fazia cada dia mais necessário no Brasil Império .

Associadas às ferrovias, as  bacias hidrográficas abundantes no Brasil, a baixo custo, serviam muito bem a este propósito, segundo experiências desenvolvidas em outros  países. Assim, a fim de analisar a viabilidade desta malha de integração, o império  formou um corpo de especialistas estrangeiros de alto conhecimento, com o objetivo de gerar  subsídios às  decisões do governo imperial.

Em virtude desses conhecimentos, muitos estudiosos elaboram planos de integração e muitos projetos foram apresentados no decorrer do império. Dentre eles o do engenheiro militar, sócio-correspondente do poderoso Clube de Engenharia do Rio de Janeiro,  Eduardo José de Moraes, que sob o título  “Navegação Interior do Brasil”, publica,  em 1869,  o que viria ser conhecido como o PLANO MORAES.

O plano, essencialmente hidroviário, visava a integração do país, envolvendo todas as províncias através de  uma ampla rede de navegação fluvial e estradas.  As estradas de ferro seriam alternativas  para transpor a Serra do Mar e a Cachoeira de Paulo Afonso ou para  ligar  Rio de Janeiro, Salvador e Recife, principais centros influentes da época,   à bacia do Rio São Francisco.

Entusiasmado com a idéia de desenvolvimento no interior do Brasil, Moraes sugere também a criação de uma Província, com sua capital nas margens do São Francisco. Ou seja, o equivalente hoje, provavelmente, a um Estado formado pelos municípios da Região Vale do São Francisco, tendo como capital uma das cidades ribeirinhas.  E justificava:

“A criação desta província seria conveniente, porque, realizadas que fossem as obras do canal, ela se acharia consolidada, e a sua capital apta a desempenhar o importante papel a que era destinada, como o empório de todo o comércio do vale de S. Francisco”.

Por sua experiência, em 1880, Moraes é nomeado  Engenheiro Chefe  encarregado da construção da estrada de ferro  que parte  do porto de Piranhas (AL) à margem do rio São Francisco até Jatobá(PE). Esta estrada é denominada de Estrada de Ferro Paulo Afonso e foi construída pelo governo geral com o objetivo de contornar a cachoeira de Paulo Afonso e Itaparica, parte  intransponível  do rio entre o alto e baixo São Francisco.

A estrada de Ferro Paulo Afonso era parte de um projeto  que previa a desobstrução do rio para torná-lo navegável  desde  Pirapora até a foz.

Iniciadas as obras da estrada de ferro houve uma corrida para compra de terrenos em Jatobá.  Preocupado com a forma desordenada como a cidade cresceria, Eduardo de Moraes encaminha um projeto urbanístico elaborado por sua conta   para o Ministério da Agricultura, ao qual  as obras da ferrovia estavam subordinadas.

Na apresentação do projeto escreve: 

“(…) que magníficas são as condições de situação de Jatobá, para poder tornar-se num futuro não remoto, uma opulenta cidade, por ser a chave da navegação e interposto obrigado de todo o comércio do grande vale do rio São Francisco, visto não possuir Piranhas as mesmas condições topográficas para se desenvolver e disputar-lhe a primazia”. ( Moraes, 1883) 

Assim, em 1883, o engenheiro propõe uma cidade exageradamente grande para os padrões  da região, coincidentemente dentro do padrão exigido pela Constituição de 1891, para a nova capital do País, sugerido pelo Visconde de Porto seguro:  “ As ruas principais devem ser bem largas, ficando as duas linhas de casas na distância de 40 passos” (…)  “marcar paragem para o gasômetro que terá de servir à iluminação e ter área mínima de 14.400.000m².

A Jatobá de Eduardo de Moraes, foi projetada para uma área de área  de 14.408,600m², formada por um grande retângulo limitado por avenidas e boulevars externos de 100m de largura,  que delimitavam o centro e o subúrbio ( a separar nobre e plebeus?), contendo 12 quadras. Ao centro, ruas de 50 m de largura com canteiros arborizados   destinada ao assentamento de carris de ferro, colocação de galerias de esgotos, encanamentos de água e gás, sem que seja necessário atrapalhar a passagem de pessoas e veículos, quando obras de construção ou manutenção fossem necessárias.

Ora, se o Plano Moraes defendia a interligação das bacias hidrográficas brasileiras, ali estava o início do principal  ramal da  rede hidroviária sonhada. Se o plano sugeria a criação da Província do São Francisco, ali bem poderia ser o começo.   Uma província precisa de uma capital. Assim sendo, por que não planejá-la de modo a evitar os problemas das demais? Não sendo assim, que motivos teriam levado Eduardo Moraes a planejar uma cidade, no Sertão Nordestino, tendo como referência a cidade do Rio de Janeiro, então Capital do Brasil?

Apenas dois anos depois de  inaugurada a Estação de Jatobá, mesmo sem a desobstrução do rio,  o comércio entre o alto ( de Pirapora a Sobradinho) e baixo São Francisco ( de Sobradinho à foz)  desenvolveu-se graças ao uso de barcos à vela.   Transportados de Piranhas por trem para o porto de Jatobá, em tempos de cheia do rio  elas conseguiam  circular com razoável segurança, visto serem  mais adequados para enfrentar as corredeiras. Era uma alternativa até as obras serem iniciadas.

No entanto, sob influência de políticos baianos, as obras que deveriam ter sido iniciadas a partir de Jatobá,   começam ao contrário, por Juazeiro. 

A imprensa da época denunciava o interesse da Bahia, interessada no prolongamento da estrada de ferro Salvador-Juazeiro,  de atrapalhar o projeto.  Sem desobstrução  as mercadorias seguiam de trem pela Bahia  e depois por terra até  o ponto onde já havia os trabalhos de desobstrução.

A falta  de conclusão das obras do rio, de fato,  acabaram prejudicando os resultados financeiros da estrada de ferro Paulo Afonso e o desenvolvimento do sertão pernambucano. O certo é que a disputa pelo prolongamento das estradas de Ferro da Bahia e de Recife  ao São Francisco , tiram o foco e os recursos das obras de desobstrução do rio.

É inegável como o comércio da região de Jatobá desenvolveu-se a partir da estrada ferro,  mas   a falta de melhoramentos do rio inviabilizou a hidrovia . E assim,   o  corredor comercial  de Minas ao mar   que abriria as portas do sertão  para o mundo, de fato não se concretizou.

 Portanto,    a cidade opulenta , quiçá  capital da Província do São Francisco, idealizada pelo engenheiro Eduardo José de Moraes, ficou apenas no papel e no sonho. 

Pesquisa: Paula Rubens

BIBLIOGRAFIA

Jornal O TRABALHO , em sua edição 666, de 23.10.1896,

MOARES, Eduardo de – NAVEGAÇÃO INTERIOR DO BRASIL – Rapido esboço da futura rede geral de suas vias navegáveis, Rio de Janeiro : Typ. Montenegro, 1894. https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/185610  /http://expagcrj.rio.rj.gov.br/eduardo-jose-de-moraes/ em  19.03.2020

Varnhage’n, Francisco Adolpho de ( Visconde de Porto Seguro) – A QUESTÃO DA CAPITAL: MARÍRIMA OU INTERIOR? – Viena-Austria – Edição do autor.-1877.

                        – MEMORIAL ORGÂNICO : (uma proposta para o Brasil em meados do século XIX) ; com ensaios introdutórios de Arno Wehling. – Brasília : FUNAG, 2016. http://funag.gov.br/biblioteca/download/1170-MEMORIAL-ORGANICO_FINAL.pdf