MUP.09 – Elza Menezes

Elza Menezes: dois nomes, simples assim

Elza Menezes

MUP.09

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Autor

Paula Rubens

PUBLICADO EM

16/11/2019

TAGS

1. Petrolândia PE 2. Barragem Itaparica 3. Ginásio Municipal de Petrolândia 4. Carnaval de Petrolândia

SINOPSE

A barragem a levou para outras terras, mas Petrolândia seguiu com ela.

Suas lembranças nos levam a uma cidade e um tempo que não mais existe. Mas o relato de sua vida nos faz entender que é pelas mãos do seus habitantes, no cotidiano, que uma cidade se constrói.

HISTÓRIA COMPLETA

Um nome com apenas duas palavras. A única entre os cinco irmãos com apenas um sobrenome, Menezes. Simples assim: apenas Elza Menezes. Obra do escrivão do cartório de Floresta (PE). E precisava mais? Afinal era bisneta do Coronel Aureliano de Menezes e seus pais, Afonso Gomes de Menezes e Isa de Menezes Lima, primos entre si, ambos eram Menezes. Tudo certo, então, seu nome contempla os dois.

Nasceu na fazenda Caiçara, município de Floresta (PE),em 01.06.1932, mas veio morar em Petrolândia quando ainda engatinhava. Seu pai convenceu-se de que sua mãe, moça da cidade, não se acostumaria à vida na roça e atendendo ao seu pedido, conseguiu um emprego na Coletoria e mudou-se para Petrolândia. A família a princípio veio morar na casa de Pai Né, Manoel Correia de Lima, pai de sua mãe. Depois de algum tempo, Dr. Dario, que era influente e amigo de seu pai, conseguiu uma colocação para ele no DNER que acabava de chegar em Petrolândia, onde trabalhou até a aposentadoria.

Viveu a infância na Rua do Funil, junto com suas primas . Seu pai não era de prender filho em casa, de noite ficava na calçada e deixava as filhas brincar à vontade, de roda, de queimado, de se esconder e outras tantas brincadeiras. O Porto da Rua* ficava nos fundos da casa, na época de cheias podia-se molhar nos pés no rio sem precisar sair do batente do quintal. Mas ela mesma não tinha coragem de entrar na água para tomar banho, preferia ficar só olhando.

Aprendeu as primeiras letras com sua tia-avó Laura Menezes, tia de sua mãe, que, com prazer, passava diariamente na casa de todos os sobrinhos, ensinando. Graças a ela, já chegou à Escola 10 Novembro praticamente alfabetizada. Lá estudou até a 4ª série primária, ginásio não havia em Petrolândia. Para ir mais além era preciso estudar fora e seu pai não tinha condições de manter as despesas de um internato. Veio concluir o ginásio quase 30 anos depois. Enquanto isso, foi aprendendo com a vida.

Desde muito cedo ela e as irmãs ganhavam um dinheirinho bordando e fazendo pequenos serviços para as tias, de modo a ajudar o pai nas despesas de casa. Tão desenvolta ela era que, ainda menor de idade, foi chamada pelo Sr. Augusto Barros para trabalhar na farmácia de sua propriedade. A pedido das pessoas foi praticando sozinha e aprendeu a aplicar injeção até na veia. Nas cirurgias realizadas por Dr. Agripa, em sua própria casa, já que a cidade não contava com hospital, ela era ajudante. Depois continuava aplicando injeções nos doentes, muitas vezes virando noites na casa do enfermo, sem ganhar nada a mais por isso.

Não conta as vezes em que pediu ao pai para lhe acompanhar quando precisou abrir a farmácia durante a madrugada, a fim de atender a quem vinha bater à sua porta precisando de remédio. Fazia porque se sentia no dever de ajudar. Sr. Augusto lhe confiava as chaves, inclusive as do cofre.

Mas o prefeito João Serafim, lhe levou para trabalhar na prefeitura, tinha 18 anos. Agora, maior de idade, passa a assumir as tarefas de secretária, tesoureira e tantas outras ao mesmo tempo. Ajudada por seu primo Gilberto Menezes, contador, a quem recorria sempre, foi aprendendo a lidar com livro-caixa, prestação de contas e obrigações legais. Aprendeu contabilidade na prática.

Estando há tanto tempo na prefeitura, não teve como não se envolver nas campanhas eleitorais, gostava de participar, mesmo a contra gosto de Eliete, sua irmã mais velha, que temia as consequências da irmã estar “metida em política”. Eliete, em parte tinha razão, seu envolvimento na política rendeu-lhe algumas dificuldades. Na campanha eleitoral, um dos candidatos era José Araújo, conhecido como Zé de Caboclo. Ele era adversário político do prefeito, Sr. Rui Aquino, a favor de quem Elza chegou até a fazer discurso durante a campanha. Acontece que, no calor da disputa, Zé de Caboclo chegou às vias de fato com Sr. Rui, tendo inclusive sacado uma arma contra ele. Felizmente a arma não disparou, mas Zé de Caboclo foi eleito. Nesse contexto, Elza resolveu tirar uma licença sem vencimento e se afastar, não sem antes ajudar seu amigo José da Cruz, sem experiência, a cumprir interinamente as funções de prefeito em substituição a Rui Aquino que havia se licenciado antes de concluir o mandato. Elza conta que essas diferenças se restringiam apenas à política. Fora disso, continuava a mesma amizade com as pessoas de posições diferentes. Tanto que muitas de suas amigas eram do PSD enquanto que ela era da UDN, partidos políticos da época.

Nessa época já havia vendido as criações que tinha ganhado dos padrinhos na Caiçara e comprara uma casa na rua D. Pedro II, vizinho à Casa Lealdade. Anos depois essa casa foi vendida para ajudar seu pai a construir a casa na Rua Manuel Borba, na antiga Petrolândia, onde a família morou até quando a construção da barragem os obrigou a mudarem-se.

Saindo da Prefeitura não ficou nenhum dia sem trabalhar, foi trabalhar no cartório de Registro de Títulos e Documentos, pertencente a Auspício Valgueiro que o Sr. Rui Aquino, apesar de não morar mais em Petrolândia, acabara de adquirir em nome de Terezinha, sua esposa. Passou a tomar conta sozinha do cartório até ele ser transferido para Olegário Barbosa, o novo tabelião, com quem continuou a trabalhar até a mudança da família para a capital.

Com seu jeito calmo, a jovem Elza participava em vários setores da vida da cidade, como membro atuante na igreja e no Clube Lítero Recreativo. Já madura, voltou a estudar, concluindo o Curso Pedagógico, tendo como padrinho na formatura o sobrinho e afilhado Telmo Cícero, ainda criança.

Da igreja participava desde pequena. Junto com os outros ajudou até a carregar telha, barro e tijolo para a construção da segunda torre da matriz, que João Leal, como encarregado, esforçava-se em concluir. No lugar onde a visita do padre era raridade, ela e a tias cuidavam para manter a igreja sempre aberta à população.

Tão rara era a presença de um padre que chegava a ser celebrada missa às três horas da manhã, com igreja cheia, aproveitando a passagem de um sacerdote em viagem que ocasionalmente transitasse por lá. Não tinha padre para celebrar missa? Batiam o sino a fim de chamar o povo como se tivesse. Com a Igreja cheia, rezavam o terço e em seguida dava-se catequese as crianças. Nunca deixaram de fazer as novenas. Tudo que as outras igrejas faziam,lá também se fazia. Só não celebravam missa.

Vivia organizando campanha para arrecadar fundos para a igreja. Com esse objetivo, ajudou muitas vezes Dona Maria Rosa no pastoril, na disputa entre os cordões quando ganhava quem arrecadasse mais, e nos leilões realizados na festa do Padroeiro e no Natal.

Junto com sua tia Raimunda, mobilizou a população para construção do rinque, piso de cimento construído no largo onde tempos depois seria a Pracinha Nova. Na inauguração do rinque organizaram o Baile das Rosas, onde as moças trajavam vestido cor-de-rosa. As festas no rinque eram uma alternativa aos bailes promovidos anteriormente na Estação Ferroviária.

Quando Dr. Nelson construiu o Grêmio Lítero Recreativo de Petrolândia,Elza participou da organização do clube, sendo uma das decoradoras oficiais nas festas de aniversário e nos carnavais de então.Sempre em prol da igreja, montou com as amigas peças teatrais, apresentadas no palco do Grêmio cobrando entrada do público, nas quais, além de atuar até como comediante, também escrevia os roteiros.

Mas foi com chegada de Padre Cristiano que os trabalhos junto à igreja se intensificaram. Mesmo cumprindo expediente no cartório, aproveitava o intervalo do almoço para fazer visitas aos presos, às prostitutas doentes e no Alto da Raposa, periferia pobre da velha Petrolândia, onde posteriormente foi criado um centro social para a oferta de vários cursos. Foi legionária atuante, sendo presidente da Cúria da Legião de Maria por muitos anos. Atuava como secretária e , nas ausências de Padre Cristiano, respondia pela Paróquia por nomeação do Bispo. Ela e Elzira, sua irmã, sofreram juntas com Padre Cristiano as pressões dos incomodados pela atuação dele a favor dos atingidos pela barragem, até conseguirem afastá-lo da paróquia. Foi um tempo difícil.Pouco tempo depois, seu pai foi convencido pelo genro, transferido para Recife, a também levar a família para lá, afinal Edvaldo, seu irmão, também estava indo.

A família foi morar no bairro de San Martin, mas Elza ainda ficou em Petrolândia, em função do trabalho. Pouco tempo depois, seu pai adoeceu e ela não aguentou ficar longe. Precisava ajudar sua irmã Elzira. Ela e a irmã sempre foram apoio uma para a outra.Conseguiu ser transferida para um cartório em Recife.

Trabalhando no cartório de Arnaldo Maciel, tinha agora que enfrentar fila para pegar ônibus diariamente e todas as demais dificuldades de morar numa outra cidade. Era assim, um novo recomeço.Logo começou a exercer sua liderança na Igreja de San Martin, contribuindo com sua capacidade intelectual para o trabalho da equipe de liturgia e a fazer novas amizades.

Depois veio a mudança para Jardim Paulista, mais uma vez, a luta pela casa própria, a princípio pequena e que aos poucos com o trabalho de Elza e Elzira foi se transformando, sendo reformada e ampliada não só para abrigar a família nuclear, mas a família ampliada e a todos aqueles que lá chegavam.A casa passou a ser ponto de apoio dos familiares e amigos que precisavam se deslocar para a capital principalmente por motivo de saúde.

Desde San Martin, a casa era ponto de encontro da família, que aos sábados, fazia serestas à noite ou à luz do dia mesmo. Animação era o que não faltava. Mesmo sem beber, Elza se divertia ao seu modo, contente em ver todos juntos. Em certos momentos, com uma paciência de Jó. Mas uma noite, Tiago,seu cunhado, a provocou para cantar e ela surpreendeu com a música que escolheu, cantando com a voz firme: “Se eu quiser fumar, eu fumo, se quiser beber eu bebo, não interessa a mais ninguém“ …, demonstrando que também entendia de boemia.

Certamente por isso, lembra com saudade das boas orquestras contratadas por Dr. Nelson, para os bailes do Grêmio Lítero, como a Orquestra Oara, de Arcoverde, na inauguração e a Orquestra Ed Mandarino de São Paulo , em festas memoráveis, segundo ela.

Embora não fosse chegada a carnaval , diverte-se ao lembrar também dos bailes do clube, quando Dr. Medeiros saía de mesa em mesa encharcando os cabelos das amigas com lança perfume e da rivalidade entre os blocos Mocidade e Vencedor no carnaval de rua. No sábado era dia do mela-mela, ou entrudo, como também se chamava. Ninguém saía de casa para não se melar, mas tinha uns afoitos que chegavam a abrir passagem nas telhas para molhar os amigos, mesmo dentro de casa. Disso ela não gostava.

Gostava mesmo era de participar da confecção do Judas, fez muito boneco. Também escrevia paródias e testamentos fazendo críticas anônimas que a moçada lia durante a malhação. Era uma diversão! Tempos bons, diz ela.

Mas hoje, apesar das limitações da velhice, segundo ela, não tem do que se queixar. Gosta de onde está. Sua casa é resultado de muito esforço e tem muita história, nela os pais viveram seus últimos dias. A casa já não fervilha como antigamente, mas os jovens sobrinhos-netos ainda enchem a casa de juventude. Já não conta mais com as visitas do irmão Edvaldo nas manhãs para tomar café, nem da irmã Eliomar, tão companheira, mas as famílias deles sempre estão presentes. Os vizinhos são como da família, os amigos da igreja também. Sente-se protegida e amada vivendo numa casa que se renova, trazendo o passado e abrindo o futuro através da alegria das crianças que a chamam por Dedé e a Elzira, por Didi.

Olhando agora para trás, revendo a vida como num filme, ela diz num sorriso, satisfeita: “valeu a pena!”

*O local era assim chamado porque lá ficavam as canoas das pessoas que vinham do lado baiano para negociar nos dias de feira e “ rua” era a expressão usada pelo povo da área rural quando se referia à cidade, dizia-se por exemplo: “Eu moro na roça, mas meu filho mora na rua por causa da escola”. Portanto, Porto da Rua significa porto que fica na cidade, no caso específico, no centro da cidade.

(HISTÓRIA CONTADA POR ÉRICA MENEZES E PAULA RUBENS, A PARTIR DOS RELATOS DE ELZA) 

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