Os falsos amigos do proletariado

Do discurso proferido pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra, em visita ao Núcleo Colonial de Petrolândia, em 14.06.1947, publicado no DIÁRIO DE NOTICIAS (RJ), de 22.06.47.

Velha Matriz de São Francisco de Assis de Petrolândia

O prédio

A obra de construção da antiga Igreja Matriz de São Francisco de Assis teve sua pedra fundamental assentada,  em 1884,    como fruto da campanha missionária realizada pelos Frades Capuchinhos italianos na região, e contou  com o apoio dos representantes locais  da Estrada de Ferro,  inaugurada um ano antes.

Segundo os documentos da igreja, primeiro foram construídas a Capela-mor, duas sacristias e uma murada na qual se improvisou uma latada onde as celebrações aconteciam. 

A igreja só foi concluída em 1961, com a ajuda do Núcleo Colonial do São Francisco, quando foram edificados três altares e a cobertura da capela Mor.   No interior da igreja, ao fundo e ao alto entre as duas torres,  um coro com lastro e cercado de madeira abrigava a serafina.

Em 1970, sob  a batuta do Padre Cristiano , o Conselho de Leigos  concluiu a reforma do interior da matriz, que ganhou  espaço para o coral no altar lateral direito  e   para adoração do Santíssimo no altar  esquerdo.   

A parede frontal do altar decorada por   pedras “de fogo”, abundantes em Petrolândia, a cruz de Jatobá e os pés de troncos de angico da mesa, significavam a valorização dos elementos locais, sinal dos novos tempos da igreja pós Concílio Vaticano II. 

Em 1973, numa outra pequena reforma, as portas laterais foram fechadas  com cobogó “para evitar os passeios dos fumantes e conversadores”. A  escada e o coro de madeira foram desmanchados para evitar acidentes,  pela situação precária em que se encontravam. 

 Para movimentação livre das portas laterais, o batistério também  precisou  ser retirado e dois  janelões do presbitério foram substituídos por basculante, a fim de melhorar a ventilação. 

Logo depois, Padre José Maria , sucessor de Padre Cristiano, acrescentaria um canteiro de cactos à parede de pedras do altar e, em reforço aos símbolos da região,  construiria uma pia batismal de pedras no mesmo padrão.  

Antes da inundação foram retirados os sinos, as imagens, a cruz e os móveis. O mais repousa no fundo do lago de Itaparica.  

Referências

Livros Tombo da Paróquia de Petrolândia – PE

Relatório  anual dos capuchinhos , de 26.01.1885 ( trecho publicado no Diário de Pernambuco, edição 41, de 30.11.1885).

A hecatombe de Jatobá: versão inédita

É com satisfação imensa que publicamos novo relato sobre a tragédia de Jatobá com base em manuscrito original do Sr. Conrado Alves de Carvalho, sobrinho-neto de um dos protagonistas da trama, cedido ao IGH por seu filho Djalma Felix. Uma versão do caso sob a ótica daqueles que, em defesa da honra, decidiram matar e morrer.

(Conrado Felix, como era mais conhecido, é neto do Capitão Felinho= Felix Gomes de Carvalho)

Introdução

Segundo o escritor baiano Wilson Lins, o antigo chefe sertanejo é fruto  do isolamento do Sertão, que no deserto cinzento, abandonado sem  Deus e sem lei, para sobreviver precisava defender-se como podia. Era ele o “príncipe rude de um império sem códigos, guerreiro e juiz numa sociedade que construía suas bases sobre esqueletos insepultos de heróis e bandidos”.

A  hecatombe de Jatobá é o epilogo  sangrento de um desses embates em defesa da honra e do poder, tão comuns no Sertão do século XIX . Ela envolve respeitados chefes sertanejos da região de Jatobá de Tacaratu em um contexto que, em respeito à história, merece ser conhecido a partir de  múltiplos pontos de vista.  

Para entender o contexto veja: Violência e morte: a hecatombe de Jatobá

A história

Conrado é neto do Capitão Felix Gomes de Carvalho, irmão de Ignacio, poupado de ir à empreitada “por ser homem da calma” e porque tinha mais filhos e podia cuidar dos filhos daqueles parentes que não voltassem da luta. Ele cresceu ouvindo o seu pai contar esta história. Esta é , portanto, a história contada sob o ponto de vista de quem viveu de perto o desenrolar de toda a trama e teve a família atingida por ela. Vamos conhecer?

“Leitores prestem atenção, 

nestes versos que eu descrevo

 falando dos  casos velhos 

que se deram em nossos municípios. 

 Do orgulho e valentia dos antigos

 que morriam sem uma covardia,

 em cima da tirania 

se acabavam como os  gregos.”

(Conrado)

Transcrição do relato de Conrado

Sobre os principais protagonistas

 Ignácio Gomes de Carvalho, político liberal, vinculado aos liberais de Floresta (PE), exerceu interinamente o cargo de escrivão do juri  e execuções criminais da comarca de Tacaratu, onde também foi vereador e 3° suplente do Juizado Municipal. Em 1883 , foi nomeado Capitão da 4ª Companhia do 41º  Batalhão de infantaria do Serviço ativo da Guarda Nacional da Paróquia de Nossa Senhora da Saúde, na Comarca de Tacaratu.

Francisco Cavalcante de Albuquerque – Tenente-coronel da Guarda Nacional. Antigo chefe político conservador da comarca de Floresta, foi Juiz suplente e delegado da comarca de Tacaratu. Acusado, pelos índios, de desmandos na Aldeia Pankararu do Brejo dos Padres, assumiu para si a demarcação das terras indígenas.  Tentou fundar um partido Conservador em Floresta, predominantemente liberal,  sob os protesto do Cel. Francisco de Barros do Nascimento. Em 1874  é acusado do assassinato de Maria Francisca de Sá, de Floresta e se refugiou na cidade de Água Branca (AL). Em 1876 voltou para Tacaratu. Em seguida, assumiu o cargo de Juiz pelo afastamento do titular Bacharel Manoel José Mendes Bastos. No ano seguinte, sob a coordenação do novo juiz de direito , Antonio Domingos Pinto Júnior,  compõe a comissão de guarda e distribuição de gênero alimentícios  de Tacaratu para os desvalidos da seca, juntamente com  Francisco Vicente Vaspassos (do partido liberal). Em 1879, fez parte do abaixo assinado em favor da defesa da honra do mesmo juiz, contra o qual havia sido publicada matéria na 2ª pag. do jornal CORREIO DA NOITE, nr. 124, de 11.09.1879. Foi acusado de mandar prender Joaquim Barbosa de Souza Ferraz, chefe liberal, comandante da Guarda Nacional,  para que não interferisse  nas eleições.  (DP 14.07.1880)

Antonio Domingos Pinto Júnior – Em 1870, deixou a função de Promotor da Comarca de Pau Dalho e, indicado pelo partido conservador, tomou posse como deputado provincial de Pernambuco. Em 1874 toma posse como Juiz de Direito da Comarca de Tacaratu, época em que Ignácio Gomes de Carvalho era escrivão interino do juri. Por ocasião da grande seca de 1877,foi presidente da comissão encarregada de agenciar socorros para os indigentes do interior da Província de Pernambuco, da qual fazia parte o Coronel Francisco Cavalcante. Em 1881, toma posse como Juiz de Direito na comarca de Paulo Afonso, na época pertencente à província de Alagoas. Em 1885, é nomeado Chefe de Policia de Pernambuco. É responsável pela relatório policial sobre o desfecho da hecatombe de Jatobá.

Versão oficial

Por último publicamos a versão oficial da tragédia , através do relatório elaborado por Antonio Domingos Pinto Júnior, juiz responsável pela conclusão do inquérito policial.

Relatório Policial 1887 (PDF)

Manuscrito de autoria de Conrado

Manuscrito original de Conrado (PDF)

Paula Francinete Rubens de Menezes

Recife, 03.02.2022

Quando o Príncipe Luiz Augusto Maria Eudes de Saxe-Coburgo-Gota foi recebido em Várzea Redonda

Último porto do Baixo São Francisco acessível aos barcos vindos de Minas Gerais, em qualquer época do ano, o povoado de Várzea Redonda, distrito de Jatobá de Tacaratu (antigo nome de Petrolândia), no séc IX, recebeu o esposo da princesa Leopoldina, e seu irmão, com todas as honras. Hoje, o povoado encontra-se submerso nas águas do reservatório da barragem de Itaparica.

Na tarde de 04 de agosto de 1868, depois de uma longa viagem de dois meses pelo Rio São Francisco, desde Minas, chegaram ao porto de Várzea Redonda os príncipes Luiz Augusto, esposo da princesa Leopoldina, e seu irmão Felipe.  Tinham por objetivo conhecer as belezas da Cachoeira de Paulo Afonso, provavelmente influenciados pelos relatos do imperador, D. Pedro II, que a visitara em 1859.

Recebidos com todas as honras dispensadas à família real, à disposição deles já estava no porto uma cavalhada arreada, oferecida pela Companhia Militar Baiana. Descansaram dormindo no povoado e, no dia seguinte, às oito da manhã, seguiram   para a cachoeira, onde chegaram  na manhã do dia 06.  

Sem perder tempo, seguiram a pé, com um guia, para observar a cachoeira pela frente. Pisando nos rochedos, em meio a precipícios e abismos, com suas botas de montaria, arriscaram-se descer até à Furna do Morcego. Depois, subiram até Angiquinhos para observar a deslumbrante caída das águas da grande cascata de Paulo Afonso. 

Na volta, almoçaram em companhia do Major Calaça, do Povoado de Água Branca; do Dr. Tamarindo, Juiz de Direito da Comarca de Tacaratu;  do Sr Manoel Francisco Dantas, da Várzea Redonda e de outros. Em seguida, partiram para o Porto de Piranhas, chegando no dia seguinte, pela manhã, para embarcar no vapor São Francisco, com destino a Penedo. 

Segundo a imprensa da época, “desprendimento, coragem e elevado espírito humanitário foram as impressões deixadas pelos dois príncipes, que durante a viagem não se furtaram a distribuir ajuda aos necessitados que encontravam pelo caminho”.

Pesquisa: Paula Rubens

Fonte: JORNAL DE RECIFE (PE), edição 206, de 05.09.1868

Igreja semi submersa de Petrolândia

A presença dela em meio ao lago do reservatório sinaliza um lugar que foi destruído e que às pessoas que ali habitavam foi imposta a necessidade de refazer todo um modus vivendi.

Essa tem história

Em 1942, Petrolândia é contemplada, através do decreto lei nº 4.505, com a criação do Núcleo Colonial Agro-Industrial São Francisco, dentro do processo de instalação de colônias agrícolas nos diversos estados do país programado pelo governo Vargas. Este seria o primeiro assentamento realizado pelo Estado, em um perímetro irrigado, destinado à colonização de agricultores sem terra no Vale do Submédio São Francisco.

O Núcleo, a princípio, era formado por 100 lotes irrigados, de quatro hectares, contendo uma casa para abrigar a família de um trabalhador e outra para colono, que recebia semente, mudas e aves, além de assistência técnica e infraestrutura capaz de absorver a produção. O colono se obrigava a pagar o lote em 13 anos, com três de carência.

Compondo esse Núcleo funcionava fábrica de laticínios, charqueada, aviário com capacidade de criação de 400 mil aves, cujos os ovos eram comercializados nos grandes centros, fábrica de salsicha e linguiça, Usina beneficiadora de arroz e milho, Fabrica de doces e extrato de tomate, oficina mecânica, marcenaria, um Hospital Regional, clube social e escola, entre outros.

Esse projeto serviu também como piloto para as ações de reorganização do ensino rural do Brasil, visando o incremento na produção agrícola, estimulada pela Comissão Brasileiro-Americana de Produção de Gêneros Alimentícios, em convênio firmado durante o ministério de Apolônio Sales na pasta da agricultura do governo de Getúlio Vargas.

Em paralelo, em 1945, é autorizada a criação da Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco (CHESF), abrindo crédito para a organização da companhia e lhe outorgando concessão para aproveitamento da energia hidráulica do rio São Francisco, no trecho compreendido entre Juazeiro (BA) e Piranhas (AL).

Foi nesse contexto que a Igreja do Sagrado Coração de Jesus começou a ser construída. Projetada para um futuro de desenvolvimento, assim como foi no passado  com a Estrada de Ferro, o prédio assume contornos de Catedral e logo um pequeno centro comercial de forma em seu entorno.

Ocorre que, após o fim da era Vargas, a administração do Núcleo entra em crise por falta de continuidade dos programas ,em virtude das mudanças de governo e consequentes mudanças do órgão gestor responsável. Iniciada sob o comando da Comissão do Vale, a administração é transferida para a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUVALE, depois SUDENE e por fim CODEVASF.

 Obviamente essa descontinuidade também se refletiu na construção da igreja. Cessam os recursos públicos. As esposas dos colonos, principalmente, passam a promover ações de arrecadação de recursos a fim de tocar a obra. Rifas, festas e leilões são organizados a fim de arrecadar recursos. Desta forma conseguiram que o interior do templo ficasse em condições de realizar celebrações e o povo não precisasse mais se deslocar para a cidade a fim de realizar casamentos, batizados e outras atividades religiosas.

Mas o templo era grande, um projeto nada modesto. Sem a ajuda de recursos públicos, como no início, as obras se arrastaram lentamente até que, em 1970, a administração do Núcleo é avisada que nenhuma obra poderia ser continuada, em virtude da construção da Barragem de Itaparica. Foi como o anúncio de uma catástrofe.

Até 1970 as usinas hidrelétricas (UHES) Paulo Afonso I e II já estavam concluídas. De acordo com o estudo de aproveitamento do rio, além de Paulo Afonso ser um ponto estratégico devido à presença de quedas naturais de água, era preciso construir um reservatório acima (a montante) a fim de viabilizar ainda mais os setores produtivos ligados à industrialização. Foi então que rapidamente foi executado o projeto da barragem de Sobradinho que desalojou cerca de 70 mil pessoas com indenizações irrisórias através de um desastroso reassentamento mal planejado e sem a participação da população. Ciente das consequências sofridas pelo povo de Sobradinho, a população do submédio São Francisco começa a organizar-se na busca por seus direitos à terra. Disto, então, resultou a pressa da CHESF em construir Itaparica – coincidindo com o período do “milagre econômico”.

Os sindicatos foram trincheiras erguidas ou reerguidas para os primeiros momentos de organização. Garantir esses espaços de representação e institucionalidade era, a antes de tudo, garantir a existência das condições de luta. Não podemos perder de vista que estávamos sob os auspícios do AI-5 e que a ditadura, apesar de estar tendo problemas com o crash do “milagre”, permanecia todo-poderosa em termos repressivos.

A tarefa de fazer reuniões e construir sindicatos não correu como água. Além das homilias dos padres do lado da Bahia, a religiosa Josefina, sediada em Petrolândia, lançou mão de táticas ligadas ao cotidiano para abrir diálogos com o povo. Segundo ela mesma, uma das maneiras de se reunir fora dos sindicatos, pois esses eram vigiados e proibidos de fazer reuniões, era usar de certas manifestações religiosas.

A luta política e o verbo organizar misturavam-se às manifestações de fé que eram parte importante daquela cultura. As posições de Josefina com certo apoio da CPT e da Regional Nordeste II da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) davam autoridade para esses sujeitos se manterem em contado com sua pratica religiosa.

“A manifestação de fé que eu aproveitei muito delas mesmo era as novenas tinha novena em tudo que é comunidade… tinha um santo tinha novena em todas as comunidades e eu participava de todas porque não havia como ou o sindicato convidava as pessoas num momento em que o sindicato ainda não assumia não tinha mudado a diretoria o sindicato não assumia eles então ia comigo e ficava dentro do carro com medo” ( Josefina)

 Para Josefina, as novenas eram a princípio um lugar para pregar o Evangelho, mas com o passar do tempo as pessoas já associavam sua novena às questões políticas e organizativas.

Neste contexto, aqui temos um símbolo. As ruínas da Igreja simbolizam a resistência da memória de um município desterritorializado e reterritorializado, para além da destruição dos laços humanos ali tecidos, sendo a única construção remanescente do período.

Junto à igreja, sob aquele espelho d´água, há também, memórias de infância, de trabalho, reuniões , debates, embates e de outros modos de ser. Há, afogadas ali, salas onde se ouviram histórias, cozinhas que ajuntaram famílias. Sob aquele lago, marcado pela presença da Igreja do Sagrado Coração de Jesus onde foram batizadas gerações, jazem lugares de primeiros beijos, intrigas, começos e fins de amores. A presença dela em meio ao lago do reservatório sinaliza um lugar que foi destruído e que às pessoas que ali habitavam foi imposta a necessidade de refazer todo um modus vivendi, como antes vinculado ao rio, mas hoje relacionado às marcas deixadas em todos os atingidos por barragens mundo à fora.

Por isso é que, além da beleza da paisagem rara, tão importante para o desenvolvimento turístico de Pernambuco e do Brasil, chegando a figurar na internet entre as nove magníficas cidades submersas do mundo https://www.viajali.com.br/cidades-submersas-no-mundo/, o conjunto da paisagem que tem a Igreja como principal referência, perfeitamente enquadra-se na definição adotada pela UNESCO no que se refere à paisagem cultural “ilustrativas da evolução da sociedade e dos assentamentos humanos ao longo do tempo, sob a influência de condicionantes e/ou oportunidades físicas apresentadas pelo seu ambiente natural, e de sucessivas forças sociais, econômicas e culturais, tanto externas quanto internas”. . . As ruínas da Igreja resistindo ao afogamento é memória de um modo de vida, história de luta, fé e resistência de um povo e diz muito sobre a história de desenvolvimento do Nordeste.

Assim, através do processo administrativo Secult nº 015/2020,de 11.01.2021, “em razão de sua importância histórica e simbólica”, a Fudarpe deferiu a proposta de tombamento apresentado pelo  do IGH de Petrolândia. Hoje a Igreja do sagrado Coração de Jesus encontra-se sob mesmo regime de preservação dos bens tombados de acordo com a legislação estadual, Lei nº 7.970/1979 e Decreto nº 6.239/1980.

Pesquisa:

Paula Rubens e Milena Gomes ( IGH – Petrolãndia )  

João Vitor ( MOVIMENTO RIO DE LUTAS – Paulo Afonso – BA)

Nota de Esclarecimento

“Não há mal que não traga um bem”. A exemplo do evento que deflagou o processo de tombamento da Igreja semi submersa, o ulitmo evento pode servir de marco para uma nova atitude de cuidado. Afinal, “quem sabe faz a hora, não espera ocontecer”.

O IGH- Instituto Geográfico e Histórico de Petrolândia vem a público esclarecer seu posicionamento com referência ao evento promovido no ultimo dia 06, de certa forma já demonstrado através de nossa sócia Milena Gomes, em matéria publicada no Blog Gota d’Água.

Tendo como um de seus objetivos a preservação do patrimônio histórico e cultural do município em benefício das gerações futuras, o Instituto não tem como assistir inerte às cenas de agressão às ruinas da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, sejam elas praticadas por DJ famosos ou por filhos terra. Portanto, é imperioso para nós tomarmos todas as providências cabíveis, sempre que necessárias, para cobrar do poder público a responsabilidade que lhe compete.

Mas nem tudo está ao nosso alcance e nem da gestão municipal. Para fazer valer a lei que hoje protege a Igreja, é imprescindível o envolvimento da Fundarpe, Ministério Público, Prefeitura e da população em geral, principalmente os empresários diretamente beneficiados pelo fluxo de turistas na cidade e os promotores de eventos.

Não somos contra o turismo, muito pelo contrário, nem contra a diversão de quem quer que seja. Mas exigimos respeito e cuidado com o que é nosso.  A Adventure Divers, um grupo de amantes do mergulho do Recife, no último 07 de setembro trouxe mais de 60 pessoas para usufruir das belezas de nossa paisagem e do nosso melhor cartão postal. Conscientes que são, aproveitaram o passeio sem que um tijolo das ruínas fosse tocado. Este é o turismo que defendemos.

 O reconhecimento pelo Estado de Pernambuco da importância da igreja semi submersa e seu valor paisagístico, histórico e cultural, acatando o nosso pedido de tombamento, é uma vitória de todos os petrolandenses. Não podemos abrir mão dessa conquista por medo de agir na hora certa. Não queremos julgar ninguém, mas exigimos que cada um assuma a responsabilidade por seus atos, propositais ou não, e se eduque, esta é a finalidade da lei.

Por outro lado, o fato de a Igreja estar legalmente protegida não impedirá sua destruição, se não nos unirmos em busca de soluções que visem sua proteção real. Para isso vamos ´precisar de todo mundo, cada petrolandense é parte da solução. Inclusive os jovens empresários locais e seus jet skis.

Assim, conclamamos pela urgente formação   do Conselho Municipal de Cultura, espaço democrático de participação e aprendizagem, como facilitador do diálogo entre a sociedade, o poder público e os demais Conselhos no encaminhamento das questões de interesse coletivo, especialmente no que se refere ao turismo e a educação patrimonial.

Instituto Geográfico e Histórico de Petrolândia – IGH

Paula Francinete Rubens de Menezes

Presidente

A César o que é de César

Uma cidade capaz de contar sua história começa pela nomeação de seus espaços públicos.

O IGH de Petrolândia vem a público parabenizar a Câmara de Vereadores pela aprovação dos projetos de lei dos vereadores Joilton e Fabrício Cavalcante, respectivamente responsáveis pela nomeação de uma escola a ser construída na quadra 5 e pela renomeação da Biblioteca Municipal Barão de Mauá. Ambas em homenagem ao mestre Gilberto de Menezes.

Há muito o nome de um prédio público da cidade não guardava tamanha coerência entre homenageado e a atividade a qual se destina. Afinal, ninguém melhor do que um professor, com vida dedicada à educação e à história, para dar nome a uma biblioteca e uma escola da cidade a qual dedicou sua vida.

Por outro lado, é revoltante ver espaços públicos reverenciando pessoas, apesar de respeitáveis e queridas, sem nenhuma representatividade comunitária ou serviço prestado, a título de agradar famílias de poderosos ou detentoras de grande número de votos. 

Não se discute a legitimidade de se desejar ter um ente querido publicamente reconhecido, mas é imprescindível haver vinculação entre a finalidade do espaço público e o condecorado. Caso contrário o tributo, além de surtir efeito inverso, transforma-se em afronta aos que, por mérito, deveriam receber tal condecoração, e ao povo da cidade que vê sua história sendo esquecida por falta de visibilidade

É lamentável, mas isso tem acontecido em Petrolândia. Onde estão as homenagens ao Dr. Ely Jaldes, responsável pela saúde e educação sanitária de várias gerações de petrolandenses?  Onde está o reconhecimento à memória de Eraldo, do Polo Sindical, com vida dedicada à luta dos trabalhadores que resultou na Petrolândia que hoje temos?

Mas, ainda há tempo. É animador ver a Câmara reverenciar o nome do Professor Gilberto. No entanto, faz-se urgente e necessário normatizar critérios que norteiem os legisladores quanto às indicações dos nomes de ruas, prédios e praças públicas, para que se dê “a César o que é de César ” e assim tenhamos uma cidade capaz de contar sua própria história.

As ruas das nova Petrolândia receberam o nome de matriarcas e patricas das famílias originárias da antiga cidade. Faz sentido e é louvável que assim tenha sido. Uma justa homenagem aos que não tiveram a chance de viver na cidade para onde seus filhos tiveram que seguir. Foi a forma encontrada para se deixar registrado, de público, as raizes identitárias desse povo.

Mas, isso justifica continuar a nomear as ruas e espaços públicos com nomes de falecidos, de cada familia, eternamente? Que história a cidade estará contando apartir de agora?

São questões a serem debatidas e definidas de modo a padronizar esse tipo de homenagem. O que não se pode é permitir que cada um decida , segundo os seus critérios.

Paula Francinete Rubens de Menezes

Presidente do IGH de Petrolândia.

Festa do Padroeiro

Procissão, tradição centenária

O ano era 1884 quando em missão por várias comunidades da diocese os freis capuchinhos , apoiados pela direção da Estrada de Ferro, celebraram a colocação da pedra fundamental na construção da primeira igreja de Jatobá de Tacaratu .  

Segundo os documentos da igreja, primeiro foram construídas a capela-mor, duas sacristias e uma murada, na qual se improvisou uma latada onde as celebrações aconteciam.  Uma estampa de São Francisco, pintada em tela à óleo,  representava o padroeiro.

Com o avanço da construção,  em substituição ao quadro, o povo se animou a providenciar uma imagem de pedra, prontamente encomendada na França por Frei Domingos. 

No início de outubro de 1886, o trem trazendo  a imagem do padroeiro fez parada no Brejinho, onde uma eufórica multidão  ansiosa esperava e com vivas, cantos e muitos fogos festejou a chegada de tão valiosa obra. Um  primoroso andor havia sido providenciado e o povo seguindo a pé em  procissão, cantando alegremente e rezando, conduziu a imagem até  a capela de Jatobá, colocando-a em seu lugar de honra. Esta celebração festiva marcou o início das festas de São Francisco na cidade.

Nove anos depois o povo do Brejinho de Fora oficializou, em cartório, a doação do terreno  da igreja . Em 1968 a Paróquia de Petrolândia é desmenbrada de Tacaratu e Padre Cristiano nomeado primero pároco.

A antiga imagem de São Francisco trazida  da França, depois de restaurada por Dona Marisa Ovídio,

foi entronizada numa redoma na fachada  frontal da matriz da nova cidade e lá permanece como a acolher os fiéis.  Somente durante o período das novenas é transferida para um andor para assumir lugar de honra nas celebrações e ser levada nas procissões, em especial no encerramento da festa do padroeiro, numa tradição de 137 anos.

Nas ondas do rádio em Petrolândia

Breve histórico sobre a estreia de emissora de rádio em Petrolândia., ilustrado em foto gentilmente cedida por Osmar Salles de Oliveira.

A radiodifusão chegou ao Brasil em 1922 e tinha como objetivo inicial divulgar eventos educativos e culturais. Popularizou-se na década de 40,“época de ouro do rádio”, a partir da radionovela e de uma programação recheada de música com programas ao vivo. No radiojornalismo surgiu o Repórter Esso, com notícias do Brasil e do mundo,  patrocinado pela companhia norte americana de combustíveis, que lhe emprestou o nome.

Com nome oficial de Rádio Educadora, no início dos anos 60, Petrolândia ganha sua primeira rádio. Instalada no antigo prédio das Escolas Reunidas 10 de Novembro, ficou popularmente conhecida como “Rádio de Montenegro”.

Antônio Montenegro, natural do Recife, veio a Petrolândia de passagem, em comitiva de políticos pernambucanos na campanha eleitoral de João Goulart. Acabou se encantando com uma moça da cidade, que mais tarde viria a ser sua esposa, o que o fez mudar-se de vez  da capital para o interior. De família tradicional e cheio de  amigos influentes na capital,  Montenegro conseguiu concessão e instalou a rádio onde ele e sua esposa, Maria Emília, atuavam conjuntamente na condução da  programação.

Mantida apenas com a receita proveniente de anúncios pagos pelo minguado comércio local, oferecimento de músicas encomendadas por moças e rapazes apaixonados e um programa dominical de auditório no Grêmio Lítero Recreativo, a rádio não conseguiu se manter em atividade por muito tempo. Em menos de um ano saiu do ar. Apesar disso, marcou época e serviu de estímulo a outras tantas experiências radiofônicas da cidade.

A Rádio Progresso é um exemplo disso. Montada , por volta de 1967,  pelo tabelião Silvio Rodrigues, cujo cartório funcionava no mesmo prédio da antiga Radio Educadora,  a rádio  surgiu  a partir de um transistor de fabricação caseira construído pelo inventivo mecânico Doda. De curto alcance, o sinal cobria apenas a área urbana.  A rádio funcionava no centro da cidade,  num beco por trás da venda do Sr. Pedro Soares,  numa sala minúscula onde mal cabiam duas pessoas.

Tinha como encarregado  o estudante Gilberto Alcântara (Betão), responsável pela programação que fazia chegar em Petrolândia os sucessos da Jovem Guarda, numa época em que a cidade ainda nem sonhava com sinal de TV. Como voluntários, revessavam-se ao microfone os amigos Marcos de Toinha Bozó (conhecido como o Tremendão, pois usava figurino inspirado em Erasmo Carlos), Renato de João de Boa, Claudio Costa e outros jovens estudantes que se divertiam levando ao ar programas de música popular, reclames, oferecimento de música e brincadeiras do tipo “Qual é a música?”.

Era um maravilhoso entretenimento para a povo de Petrolândia nos monótonos dias sem novidades,  tão comum nas pequenas cidades interioranas.

Pesquisa : Paula Rubens

Ginásio Municipal de Petrolândia

Relatos sobre o Ginásio Municipal de Petrolândia extraídos do livro “De Jatobá a Petrolânida – Três nomes, uma cidade, um povo” de Gilberto de Menezes.

Relatos de Gilberto de Menezes

Do livro De Jatobá a Petrolândia: três nomes, uma cidade, um povo (2014) de Gilberto de Menezes, às páginas 143 , 145 e 151, extraímos o seguinte relato acerca do Ginásio Municipal de Petrolândia.

O prefeito Amaro José da Silva resolveu dotar o município de um curso ginasial onde os que haviam concluído o curso primário pudessem continuar os estudos, deparando-se de imediato com três problemas: falta de prédio capaz de abrigar o curso atendendo às exigências do MEC foi o primeiro; e, segundo lugar a falta de recursos da Prefeitura para assumir ps gastos e em último lugar a falta de professores habilitados. Mas nada é impossível quando há boa vontade. Logo surgiram as soluções:

a) enquanto não fosse possível a construção de um prédio próprio seriam ocupadas as salas inativas do Grupo Escolar Delmiro Gouveia, que ele mesmo havia inaugurado, nos turnos vespertino e noturno;

b) os alunos pagariam uma mensalidade, devendo a Prefeitura conceder bolsas de estudo aos alunos que não tivessem condições de fazê-los;

c) seriam contratadas as professoras do Grupo Escolar Delmiro Gouveia para as matérias em que se julgassem habilitadas. Para as matérias restantes seriam convidados profissionais liberais, funcionários públicos etc. que fossem capazes de ministrá-las.

Para dirigir o recém-criado estabelecimento o prefeito convidou o Padre Pedro Gabriel de Vasconcelos, Pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Saúde, que aceitou o cargo mas chamou a atenção para sua inexperiência em organização e administração de estabelecimentos escolares. Tudo, porém foi resolvido com a atuação decidida do Dr. JOSÉ MEDEIROS DE SOUZA, administrador do Núcleo da Barreira que aceitou o cargo de Inspetor de Ensino e pôs à disposição do ginásio Maria Otília Netta Costa, então Orientadora Educacional da Comissão do Vale do São Francisco que cursava Filosofia na Universidade Federal de Pernambuco.”

Em 1964,  José Araújo da Silva toma posse como prefeito e dá continuidade à construção do prédio do ginásio, ampliando suas instalações. Criou o Colégio Comercial São Francisco e o Colégio Normal Municipal de Petrolândia que passam a funcionar no mesmo prédio, depois de terem utilizado as instalações do antigo escritório do DNOCS  (Curso de Contabilidade) por breve período.

Em 1977, assume a prefeitura José Dantas de Lima e implanta  a gratuidade do ensino municipal. Em 03/06/1982, ainda em sua gestão, pela portaria 42/56, transfere ao Estado o Ginásio e os demais Colégios  com o nome de Escola de Jatobá – Ensino de 1º e 2º Graus.

Registro de fundação

Seguem abaixo fotografias do registro de fundação do ginásio:

Pesquisa: Paula Rubens

%d blogueiros gostam disto: