Festa do Padroeiro

Procissão, tradição centenária

O ano era 1884 quando em missão por várias comunidades da diocese os freis capuchinhos , apoiados pela direção da Estrada de Ferro, celebraram a colocação da pedra fundamental na construção da primeira igreja de Jatobá de Tacaratu .  

Segundo os documentos da igreja, primeiro foram construídas a capela-mor, duas sacristias e uma murada, na qual se improvisou uma latada onde as celebrações aconteciam.  Uma estampa de São Francisco, pintada em tela à óleo,  representava o padroeiro.

Com o avanço da construção,  em substituição ao quadro, o povo se animou a providenciar uma imagem de pedra, prontamente encomendada na França por Frei Domingos. 

No início de outubro de 1886, o trem trazendo  a imagem do padroeiro fez parada no Brejinho, onde uma eufórica multidão  ansiosa esperava e com vivas, cantos e muitos fogos festejou a chegada de tão valiosa obra. Um  primoroso andor havia sido providenciado e o povo seguindo a pé em  procissão, cantando alegremente e rezando, conduziu a imagem até  a capela de Jatobá, colocando-a em seu lugar de honra. Esta celebração festiva marcou o início das festas de São Francisco na cidade.

Nove anos depois o povo do Brejinho de Fora oficializou, em cartório, a doação do terreno  da igreja . Em 1968 a Paróquia de Petrolândia é desmenbrada de Tacaratu e Padre Cristiano nomeado primero pároco.

A antiga imagem de São Francisco trazida  da França, depois de restaurada por Dona Marisa Ovídio,

foi entronizada numa redoma na fachada  frontal da matriz da nova cidade e lá permanece como a acolher os fiéis.  Somente durante o período das novenas é transferida para um andor para assumir lugar de honra nas celebrações e ser levada nas procissões, em especial no encerramento da festa do padroeiro, numa tradição de 137 anos.

Violência e morte: a hecatombe de Jatobá

A chacina resultante dos conflitos políticos na Tacaratu de 1885, é um retrato da acirrada disputa eleitoral vivida em Pernambuco no final do século IX.

No Brasil Império, o Partido Conservador manteve-se no poder na Província de Pernambuco de 1885 a abril de 1888, desbancando o Partido Liberal. 

Em outubro de 1885 , assumiu o governo de  Pernambuco o conservador  José Fernandes da Costa Júnior,  que tinha em Jatobá o Cel. Francisco Cavalcante como agente eleitoral.  O novo governador destitui o delegado que atuava em Tacaratu há três anos e nomeia para o cargo um sobrinho de Cavalcante.   

O novo delegado, temido na cidade pelo cometimento de inúmeros crimes, esteve foragido e retornava com sede de vingança, segundo texto abaixo extraído do Jornal do Comércio em sua edição 63 de 04/03/1886 (reproduzindo matéria do jornal Província de 20/02/1886):

“ (…) Quando Cavalcante com numeroso séquito armado fez a sua “entrada triunfal” na Vila, esta já estava em grande parte despovoada: nas poucas casas habitadas houve um… Fecha! Fecha!..de terror!”

“E começou então, quase sem interrupção de um dia, uma série de violências e atentados de toda a ordem, nas ruas, nas feiras, em pleno dia e sob as vistas das próprias autoridades judiciárias, impassíveis, sob pena de serem elas mesmas igualmente vítimas”.

Jornal do Comércio-RJ, número 63 de 04/03/1886

Consta que famílias inteiras abandonaram a vila e que um júri foi convocado poucos dias depois em 15/10/1885. O novo delegado e seus comparsas saíram todos incólumes de três processos julgados no mesmo dia naquele tribunal do juri, sendo ablsolvidos um total de 22 pessoas (Jornal do Commercio RJ de 28.04.1886). Segundo o jornal, tais fatos corroboravam para a acusação de que o Governador da Província não dava ouvidos às queixas que lhe chegavam, numa clara preparação de terreno para as eleições que se sucederiam em nível local.

De fato, tudo parece concorrer para essa conclusão, já que na véspera da eleição de 15 de janeiro, consta que Cavalcante e sua turma proporcionaram uma verdadeira noite de terror ao povo de Tacaratu, sitiando a cidade, invadindo residências e roubando títulos de eleitor.

“ Um grupo desses sequazes de Cavalcante assaltaram alta noite as casas habitadas por liberais, arrombando portas, batendo noutras, em algazarra , insultos e provocações insólitas; a própria casa de juiz de direito onde estava hospedado o candidato liberal , não foi poupada, e aí só o arrombamento da porta deixou de ser praticado”.      

O Jornal do Recife de 23/01/1886  reproduz o seguinte excerto de publicação de 22/01/1986 do Jornal A Província (vinculado ao Partido Liberal):

“ A comarca de Tacaratu está fora da lei. São inúmeros os espancamentos e outras violências que nela se tem dado  e estão impunes. No dia da eleição geral postou-se gente armada nas estradas, para impedir que votassem os eleitores liberais”.  

Ainda na referida edição citada no Jornal do Commercio-RJ em seu número 63 de 04/03/1886, temos que:  

“ Acaba de ser barbaramente espancado  em plena rua de Jatobá, o Capitão Ignácio Gomes de Carvalho, suplente do juiz municipal e membro da mesa eleitoral no dia 15 de janeiro, pertence ao partido liberal e é geralmente estimado”. 

A motivação para esse espancamento, segundo discurso proferido na Câmara de Pernambuco por Antonio de Siqueira (candidato liberal derrotado nas últimas eleições), era que o Capitão Inácio remetera dois requerimentos da população da Vila de Tacaratu solicitando providências contra os desmandos cometidos durante a eleição. 

Segundo o deputado, o Coronel espancado tinha sob sua proteção seu primo Cypriano Queiroz, um refugiado da polícia, que tratou de montar um grupo  em ataque ao mandante do espancamento.  De acordo com  o inquérito policial apresentado,  o grupo de Cypriano recebia apoio de  Francisco Vicente da Cunha Valpassos,  Antonio Gomes Correia da Cruz, José Jovino Marques e Guilherme Gomes de Araújo, todos desafetos do Cel.  Francisco Cavalcante. Ainda segundo  Siqueira, no Brejinho, o fazendeiro Francisco Pereira apoiava o grupo noticiando  tudo que se passava com o Cel. Cavalcante, que tinha casa em Jatobá, distante 3 km apenas do Brejinho.

Após essa série de acontecimentos, o filho de Cavalcante sofreu uma emboscada, mas conseguiu sair com vida. O Coletor Provincial, José Gomes de Sá Araújo, amigo de Cavalcante, foi assassinado noutra investida. Todas essas ações sob o comando de Cypriano Queiroz. A essas alturas, esperava-se um ataque a Jatobá, onde o Cel. Francisco Cavalcante morava. Temendo por sua vida, o coronel, em outubro, dirige-se à capital da Província para pedir proteção.  

A onda de violência continuava, até que em 4 de dezembro chega a Tacaratu uma força de linha do 2º batalhão de infantaria com 50 homens, a fim de garantir a tranquilidade. Mas nada detinha a sede de vingança do orgulhoso capitão ferido em seus brios. Assim, Inácio traça os planos com o primo e “reúne gente e manda avisar a Cavalcante que estivesse em alerta, pois em dia e hora determinados lhe tomaria a porta”.

Francisco Cavalcante não era rico, mas influente e, pelos relatos da época, era um homem temido: detinha a patente de tenente-coronel, foi delegado de Tacaratu e 1º suplente de juiz municipal (Jornal do Comércio-RJ em sua edição 163 de 13.06.1886) e conseguia emprego na Estrada de Ferro para seus apadrinhados. Tendo empregado, inclusive, um de seus filhos.

Cavalcante parece mesmo ter se mantido envolvido em conflitos políticos e de terras permanentemente. Através de relatos na seção de cartas do Jornal do Recife, percebe-se que ele tanto perseguia como era perseguido.  

Existem histórias de perseguição aos índios, espancamento, proibição de rituais, rapto e defloramento de mulheres e meninas infligidos por Cavalcante  para imprimir o terror que lhe rendia terras. Assim nos apresenta o sociólogo Arruti, através de depoimentos constantes de sua obra  “O reencantamento do mundo: trama histórica e arranjos territoriais Pankararu”, como o que se segue:  

“Então esse Cavalcante chegou aqui se engraçando das índias, batendo nos índios, e o pessoal correram pro Ouricuri. O pessoal mais velho foi embora e adepois os filhos foram voltando, uns voltaram e outros ficaram lá, aquele pessoal mais velho que ficaram envergonhado de tê apanhado…,”  

Assim, ao que parece, não foi difícil reunir todos os desafetos do coronel em torno de uma  vingança, afinal, cada um tinha seus motivos. Tudo leva a crer que os índios também faziam parte do grupo chefiado por Cypriano. Em nota do Jornal do Commercio (RJ) de 17/12/1888 temos o seguinte desfecho do caso: 

“[…] o Sr. Cypriano de Queiroz,capitaneando um grupo de conservadores dissidentes, na madrugada do dia 11, atacou a fazendo do Cel. Francisco Cavalcante perto da cidade de Jatobá.  Houve luta e tiroteio durante 8 horas . 

Morreram, além de Coronel e de seu filho mais velho, o chefe dos assaltantes, Cypriano de Queiroz,  e entre os feridos que são muitos encontram-se uma filha e a mulher de Cavalcante.” 

Em outra nota na mesma página, mesmo indicando esse número como exagerado,  registra-se a ocorrência de 17 mortos no conflito. No entanto, pelo que relata Albuquerque,  o número parece mesmo ser até maior do que esse. Consta que Inácio conseguiu fugir levando consigo um grupo de 13 homens. Cypriano não conseguira escapar, tendo sido apanhado pelos soldados e demais homens de Cavalcante que haviam saído para almoçar. Antes de ser morto teve os olhos furados para que delatasse o paradeiro dos demais.  Não revelou, contudo os desertores foram localizados. Estavam escondidos nas grutas da  cachoeira, esconderijo muito provavelmente sugerido pelos índios do grupo, visto ser cachoeira local extremamente familiar a eles.

Certamente, sentindo que não haveria saída e tendo avistado um parente seu em meio à tropa, Inácio, após a concordância dos demais companheiros, deixou o esconderijo e se entregou, sendo seguido pelos demais. Um a um foram todos trucidados ali mesmo. Exceto dois, Félix Pita e Pedro Zungão, que, desconfiados das promessas de garantia de vida, saltam nas águas da cachoeira e, com bastante sorte, conseguem chegar ao lado baiano do rio.   

Esse violento episódio se desdobrou em retaliações e perseguições entre conservadores e liberais locais, além de muitos debates na Câmara Estadual. Tais acontecimentos mereceram destaque na imprensa por longo período, alimentando ainda mais o ódio existente. 

Como se pode ver, a fama de pleitos eleitorais nada tranquilos na região vem de longe. 

Referências

Pesquisa: Paula Rubens

“Poema Pesquisa” – Vídeo de Kerollayne no Museu da Pessoa

O poema de Kerollyne Gominho traduz os sentimentos vividos ,enquanto pesquisadora, em busca de entender a extensão dos danos causados pela desterritorialização forçada da população de sua terra natal, atingida pela barragem de Itaparica.

Kerollayne Cavalcante Gominho, nasceu em Petrolândia-PE, no ano de 1994, sua Trisavó Maria Cavalcante Nunes, foi a primeira professora do povoado da Várzea Redonda e uma das primeiras do Município de Petrolândia. É filha de Amilson e Claudiane, Feirantes, neta de Toinha e Mário Gominho, também de Preta e Sancho da feira. Irmã de Amilson Filho. Morou na cidade natal até seus 19 anos, em 2014 foi estudar em Garanhuns-PE, onde se formou em 2018 pela Universidade de Pernambuco, como Bacharela em Psicologia.

Seu vídeo foi premiado no Concurso “Petrolândia e a Nossa História” , lançado em celebração ao 112 º aniversário da cidade e 7º ano de atividade do IGH, no presente mês, e passa a compor a Coleção “Memórias de Petrolândia” no Museu da Pessoa.

“No dia em que vi o riacho Correr ao Contrário” – Vídeo de Rogério Viana no Museu da Pessoa

O vídeo traz emocionante relato de Rogério sobre sua infância no Povoado de Barreiras nos anos 70-80, e sobre o que viu e sentiu no momento em que as águas da barragem de Itaparica invadiram a propriedade de sua família.

Viana é agricultor, piscicultor e professor no Munícipio de Petrolândia. Seu vídeo foi premiado no Concurso “Petrolândia e a Nossa História” , lançado em celebração ao 112 º aniversário da cidade e 7º ano de atividade do IGH, no presente mês, e passa a compor a Coleção “Memórias de Petrolândia” no Museu da Pessoa.

Confira em : https://acervo.museudapessoa.org/pt/conteudo/historia/no-dia-em-que-vi-o-riacho-correndo-ao-contrario-196601/colecao/127314/

VÍDEOS PREMIADOS CONCURSO PETROLANDIA NOSSA HISTÓRIA

Memória de fatos e emoções vividas no período da enchente, e da mudança para a nova cidade de Petrolândia ,por ocasião do enchimento do lago de Itaparica, em função da barragem, são elementos constantes nos dois vídeos premiados.

Memórias recheadas de muita emoção estão contemplados nos vídeos participantes no Concurso PETROLÂNDIA NOSSA HISTÓRIA.

Assim como nos textos premiados, eles trazem acontecimentos particulares que se entrelaçam com o passado histórico da cidade e das pessoas. De conteúdos tão importes e significativos , produzidos em estilos diferentes (verso e prosa) ,foi impossível premiar apenas um.

Assim resolvemos contemplar os videos : O DIA EM QUE VI O RICHO CORRER AO CONTRÁRIO, autoria de Rogério Viana e POEMA PESQUISAS , de Karollayne Gominho.

Dada a contribuição para o registro de nossa história recente, ambos os vídeos estarão disponíveis no Canal do YouTube do IGH.

Nossa gratidão aos participantes!

Texto Premiado – Concurso Petrolândia e a Nossa História

A HISTÓRIA QUE ME CONTARAM traz interessante caso relacionado ao futebol. Fala do preconceito e modo de vida da sociedade petrolandense dos anos 40.

Sobre o concurso

No ensejo de celebrar o 112º aniversário da cidade e os 07 anos de atividades do IGH, durante o mês de junho deste ano promovemos o Concurso ” PETROLÂNDIA E A NOSSA HISTÓRIA” cujo o resultado hoje temos o prazer de divulgar.

Essa ação teve como objetivo principal estimular o registro das memórias do povo de Petrolândia na sua relação com a cidade, cientes de que o registro dessas memórias se faz urgente e necessário.

E assim se faz, não apenas no sentido de preservação , mas, principalmente, no intuito de fortalecer os laços identitários e ajudar a curar as feridas de um povo que , por força da construção da Barragem, sente ainda os efeitos do êxodo forçado.

Agradecimento

Queremos agradecer a todos os que se empenharam em registrar suas memórias, fragmentos de suas histórias particulares que nos ajudam a ir montando a grande corpo de nossa história social.

De comum acordo com os participantes, todos os texto passarão a fazer parte do acervo do IGH na Coleção de Memórias de Petrolândia, do MUSEU DA PESSOA e em breve estarão acessíveis ao público.

O escolhido

O texto premiado, A HISTÓRIA QUE ME CONTARAM, foi escrito por Dimas Rodrigues, nascido em Petrolândia, cujo o pai, Antonio Timbé, dedicou a vida a preparar jovens talentos para o futebol. É sobre esse universo eivado de preconceitos que Dimas faz o seu relato e nos surpreende com desfecho desta história.

Degustem à vontade!

A história que me contaram

Petrolândia, final da década de 40. Uma sociedade local sem clube e sem sócios, preconceituosa, reacionária e pobre. Porém, a cada seis meses organizava um baile para se reunir e apresentar os filhos e novos parentes a sociedade. E, claro, confirmar entre si, e suas famílias, que só eles eram dignos de compor aquele grupo.

A família mais culta de Petrolândia era disparada a família Menezes, eles não se envolviam abertamente em disputas. Eram meio neutros e se mantinham a parte dos problemas locais. Evitavam conflitos, tipo assim: quando convidados para um velório não iam. Quando iam, nem choravam e nem sorriam. Desculpem -me , mas a rima me persegue.

Naquele ano o baile fora organizado no salão de espera da estação da rede ferroviária Federal (GREAT WESTERN). Um cidadão recém chegado em Petrolândia, entendeu que o baile era para todos. Então, se embonecou e foi à festa. Não sem antes passar na residência de um sapateiro ,também recém chegado na cidade, que apesar do pouco tempo já era conhecido pelo requinte em dar nó em gravata.

O baile corria dentro da normalidade, até que o desconhecido adentrou ao evento. Estatura média, loiro, trajava um terno de linho branco, sapatos bicolor, camisa azul clara e gravata listrada com um cheio e bem feito nó Windsor. Em pouco mais de dez minutos o cavalheiro em questão estava cercado por senhoras carolas, senhores arrogantes, rapazes ciumentos e donzelas ofegantes.

O barulho era geral, a bandinha tocava um fox e os casais dançavam um baião, mas quem se aproximou ouviu a conversa: ” Que ousadia! Um estranho pé rapado, um mecânico sujo de graxa e óleo ousar macular um grupo sagrado como o nosso? Falta de respeito com a alta Sociedade de Petrolândia!”. Então , cercaram o cidadão como se fosse um bandido e o convenceram, quer dizer, convidaram quase que coercitivamente a se retirar.

Depois disso, sobrou o arroubo dos senhores, a fofoca das senhoras, o alívio dos rapazes e a tristeza das moçoilas. Para o bem de todos, isso é , menos das donzelas, o homem foi embora. O baile foi reiniciado e a vida continuou, continuou e continuou…

Por fim, esse homem hoje empresta o seu nome e alcunha ao maior monumento da cidade. Ou seja, o estádio municipal de futebol de Petrolândia, ,palco de futebol local: ESTÁDIO MANUEL ANÍZIO DA MOTA , O GALEGÃO.

OBS: The Great Western of Brasil Railway Company Limited foi uma empresa Ferroviária inglesa que construiu e explorou ferrovias no nordeste do Brasil . Em Petrolândia, e talvez em parte do nordeste, usava-se uma corruptela e todo mundo a conhecia como GRETUESTA.

Dimas Rodrigues.
Petrolândia, 30.06.2021.

PETROLÂNDIA, A CAPITAL QUE FOI SEM NUNCA TER SIDO

A formação de um país unificado  e integrado ao comércio internacional,    a comunicação entre as províncias  e destas para os portos e vice e versa , além da ocupação dos espaços demográficos vazios, se fazia cada dia mais necessário no Brasil Império .

Associadas às ferrovias, as  bacias hidrográficas abundantes no Brasil, a baixo custo, serviam muito bem a este propósito, segundo experiências desenvolvidas em outros  países. Assim, a fim de analisar a viabilidade desta malha de integração, o império  formou um corpo de especialistas estrangeiros de alto conhecimento, com o objetivo de gerar  subsídios às  decisões do governo imperial.

Em virtude desses conhecimentos, muitos estudiosos elaboram planos de integração e muitos projetos foram apresentados no decorrer do império. Dentre eles o do engenheiro militar, sócio-correspondente do poderoso Clube de Engenharia do Rio de Janeiro,  Eduardo José de Moraes, que sob o título  “Navegação Interior do Brasil”, publica,  em 1869,  o que viria ser conhecido como o PLANO MORAES.

O plano, essencialmente hidroviário, visava a integração do país, envolvendo todas as províncias através de  uma ampla rede de navegação fluvial e estradas.  As estradas de ferro seriam alternativas  para transpor a Serra do Mar e a Cachoeira de Paulo Afonso ou para  ligar  Rio de Janeiro, Salvador e Recife, principais centros influentes da época,   à bacia do Rio São Francisco.

Entusiasmado com a idéia de desenvolvimento no interior do Brasil, Moraes sugere também a criação de uma Província, com sua capital nas margens do São Francisco. Ou seja, o equivalente hoje, provavelmente, a um Estado formado pelos municípios da Região Vale do São Francisco, tendo como capital uma das cidades ribeirinhas.  E justificava:

“A criação desta província seria conveniente, porque, realizadas que fossem as obras do canal, ela se acharia consolidada, e a sua capital apta a desempenhar o importante papel a que era destinada, como o empório de todo o comércio do vale de S. Francisco”.

Por sua experiência, em 1880, Moraes é nomeado  Engenheiro Chefe  encarregado da construção da estrada de ferro  que parte  do porto de Piranhas (AL) à margem do rio São Francisco até Jatobá(PE). Esta estrada é denominada de Estrada de Ferro Paulo Afonso e foi construída pelo governo geral com o objetivo de contornar a cachoeira de Paulo Afonso e Itaparica, parte  intransponível  do rio entre o alto e baixo São Francisco.

A estrada de Ferro Paulo Afonso era parte de um projeto  que previa a desobstrução do rio para torná-lo navegável  desde  Pirapora até a foz.

Iniciadas as obras da estrada de ferro houve uma corrida para compra de terrenos em Jatobá.  Preocupado com a forma desordenada como a cidade cresceria, Eduardo de Moraes encaminha um projeto urbanístico elaborado por sua conta   para o Ministério da Agricultura, ao qual  as obras da ferrovia estavam subordinadas.

Na apresentação do projeto escreve: 

“(…) que magníficas são as condições de situação de Jatobá, para poder tornar-se num futuro não remoto, uma opulenta cidade, por ser a chave da navegação e interposto obrigado de todo o comércio do grande vale do rio São Francisco, visto não possuir Piranhas as mesmas condições topográficas para se desenvolver e disputar-lhe a primazia”. ( Moraes, 1883) 

Assim, em 1883, o engenheiro propõe uma cidade exageradamente grande para os padrões  da região, coincidentemente dentro do padrão exigido pela Constituição de 1891, para a nova capital do País, sugerido pelo Visconde de Porto seguro:  “ As ruas principais devem ser bem largas, ficando as duas linhas de casas na distância de 40 passos” (…)  “marcar paragem para o gasômetro que terá de servir à iluminação e ter área mínima de 14.400.000m².

A Jatobá de Eduardo de Moraes, foi projetada para uma área de área  de 14.408,600m², formada por um grande retângulo limitado por avenidas e boulevars externos de 100m de largura,  que delimitavam o centro e o subúrbio ( a separar nobre e plebeus?), contendo 12 quadras. Ao centro, ruas de 50 m de largura com canteiros arborizados   destinada ao assentamento de carris de ferro, colocação de galerias de esgotos, encanamentos de água e gás, sem que seja necessário atrapalhar a passagem de pessoas e veículos, quando obras de construção ou manutenção fossem necessárias.

Ora, se o Plano Moraes defendia a interligação das bacias hidrográficas brasileiras, ali estava o início do principal  ramal da  rede hidroviária sonhada. Se o plano sugeria a criação da Província do São Francisco, ali bem poderia ser o começo.   Uma província precisa de uma capital. Assim sendo, por que não planejá-la de modo a evitar os problemas das demais? Não sendo assim, que motivos teriam levado Eduardo Moraes a planejar uma cidade, no Sertão Nordestino, tendo como referência a cidade do Rio de Janeiro, então Capital do Brasil?

Apenas dois anos depois de  inaugurada a Estação de Jatobá, mesmo sem a desobstrução do rio,  o comércio entre o alto ( de Pirapora a Sobradinho) e baixo São Francisco ( de Sobradinho à foz)  desenvolveu-se graças ao uso de barcos à vela.   Transportados de Piranhas por trem para o porto de Jatobá, em tempos de cheia do rio  elas conseguiam  circular com razoável segurança, visto serem  mais adequados para enfrentar as corredeiras. Era uma alternativa até as obras serem iniciadas.

No entanto, sob influência de políticos baianos, as obras que deveriam ter sido iniciadas a partir de Jatobá,   começam ao contrário, por Juazeiro. 

A imprensa da época denunciava o interesse da Bahia, interessada no prolongamento da estrada de ferro Salvador-Juazeiro,  de atrapalhar o projeto.  Sem desobstrução  as mercadorias seguiam de trem pela Bahia  e depois por terra até  o ponto onde já havia os trabalhos de desobstrução.

A falta  de conclusão das obras do rio, de fato,  acabaram prejudicando os resultados financeiros da estrada de ferro Paulo Afonso e o desenvolvimento do sertão pernambucano. O certo é que a disputa pelo prolongamento das estradas de Ferro da Bahia e de Recife  ao São Francisco , tiram o foco e os recursos das obras de desobstrução do rio.

É inegável como o comércio da região de Jatobá desenvolveu-se a partir da estrada ferro,  mas   a falta de melhoramentos do rio inviabilizou a hidrovia . E assim,   o  corredor comercial  de Minas ao mar   que abriria as portas do sertão  para o mundo, de fato não se concretizou.

 Portanto,    a cidade opulenta , quiçá  capital da Província do São Francisco, idealizada pelo engenheiro Eduardo José de Moraes, ficou apenas no papel e no sonho. 

Pesquisa: Paula Rubens

BIBLIOGRAFIA

Jornal O TRABALHO , em sua edição 666, de 23.10.1896,

MOARES, Eduardo de – NAVEGAÇÃO INTERIOR DO BRASIL – Rapido esboço da futura rede geral de suas vias navegáveis, Rio de Janeiro : Typ. Montenegro, 1894. https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/185610  /http://expagcrj.rio.rj.gov.br/eduardo-jose-de-moraes/ em  19.03.2020

Varnhage’n, Francisco Adolpho de ( Visconde de Porto Seguro) – A QUESTÃO DA CAPITAL: MARÍRIMA OU INTERIOR? – Viena-Austria – Edição do autor.-1877.

                        – MEMORIAL ORGÂNICO : (uma proposta para o Brasil em meados do século XIX) ; com ensaios introdutórios de Arno Wehling. – Brasília : FUNAG, 2016. http://funag.gov.br/biblioteca/download/1170-MEMORIAL-ORGANICO_FINAL.pdf

Bandeira de Petrolândia

Durante o primeiro mandato do Prefeito José Dantas de Lima (1977- 1982), o colégio Municipal São Francisco , que ministrava o curso de contabilidade, sob a direção de Maria do Socorro Nunes de Souza ( Maria de Santo) organizou um concurso aberto a todos os alunos da rede municipal, inclusive os do Núcleo Colonial de Barreiras, com o objetivo de elaborar um escudo representativo , visando a criação da Bandeira do Município.

Contando com o apoio da Prefeitura, que se comprometeu a premiar o vencedor, o projeto tinha como critério a obrigatoriedade de fazer constar no seu desenho características específicas do nordeste e do município e trazer em destaque o rio São Francisco, tão importante para a região.

Alunos de todas as idades se inscreveram. Sob a orientação da professora Maria Leonor Lima e Sá os desenhos foram elaborados, na escola, todos ao mesmo tempo, e em seguida apresentados a uma banca examinadora formada por professores do Colégio.

Ao final, apresentando a mesma paisagem em dois formatos ,Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é projeto-2.jpgEsta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é projeto-1.jpg

o aluno do curso de contabilidade , ARNALDO JOSÉ DE SOUZA,                            , hoje respeitado contador, venceu o concurso.

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Como prêmio ganhou a dispensa de pagamento de uma anuidade do curso técnico em Contabilidade, que frequentava no Colégio São Francisco.

Passando a ser utilizado como brasão presente na bandeira e documentos oficiais, o projeto vencedor foi reelaborado a fim de se adequar à legislação em vigor. Ganhou as cores da bandeira Nacional; o sol e o mandacaru, respectivamente símbolo do clima causticante do sertão e da flora nordestina foram mantidos; e o rio São Francisco foi complementado por seus afluentes Moxotó e Mandantes, marcos fronteiriços do município na época.Ao topo do escudo, o leão, símbolo da bravura do povo pernambucano, a representar a proteção do Estado.

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Trazendo as cores azul e branco da bandeira de Pernambuco , a primeira bandeira confeccionado para o município teve o brasão pintado à mão pela jovem petrolandense, Leone Cruz.

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Apesar de ter passado logo a ser utilizado, somente em 17.08 2016 a obrigatoriedade do uso do brasão é oficializado, após a provação pela Câmara do projeto de Lei 145/2016, apresentado pelo então vereador Carlos Alberto Araújo Correia.

Pesquisa: Paula Rubens