A hecatombe de Jatobá: versão inédita

É com satisfação imensa que publicamos novo relato sobre a tragédia de Jatobá com base em manuscrito original do Sr. Conrado Alves de Carvalho, sobrinho-neto de um dos protagonistas da trama, cedido ao IGH por seu filho Djalma Felix. Uma versão do caso sob a ótica daqueles que, em defesa da honra, decidiram matar e morrer.

(Conrado Felix, como era mais conhecido, é neto do Capitão Felinho= Felix Gomes de Carvalho)

Introdução

Segundo o escritor baiano Wilson Lins, o antigo chefe sertanejo é fruto  do isolamento do Sertão, que no deserto cinzento, abandonado sem  Deus e sem lei, para sobreviver precisava defender-se como podia. Era ele o “príncipe rude de um império sem códigos, guerreiro e juiz numa sociedade que construía suas bases sobre esqueletos insepultos de heróis e bandidos”.

A  hecatombe de Jatobá é o epilogo  sangrento de um desses embates em defesa da honra e do poder, tão comuns no Sertão do século XIX . Ela envolve respeitados chefes sertanejos da região de Jatobá de Tacaratu em um contexto que, em respeito à história, merece ser conhecido a partir de  múltiplos pontos de vista.  

Para entender o contexto veja: Violência e morte: a hecatombe de Jatobá

A história

Conrado é neto do Capitão Felix Gomes de Carvalho, irmão de Ignacio, poupado de ir à empreitada “por ser homem da calma” e porque tinha mais filhos e podia cuidar dos filhos daqueles parentes que não voltassem da luta. Ele cresceu ouvindo o seu pai contar esta história. Esta é , portanto, a história contada sob o ponto de vista de quem viveu de perto o desenrolar de toda a trama e teve a família atingida por ela. Vamos conhecer?

“Leitores prestem atenção, 

nestes versos que eu descrevo

 falando dos  casos velhos 

que se deram em nossos municípios. 

 Do orgulho e valentia dos antigos

 que morriam sem uma covardia,

 em cima da tirania 

se acabavam como os  gregos.”

(Conrado)

Transcrição do relato de Conrado

Sobre os principais protagonistas

 Ignácio Gomes de Carvalho, político liberal, vinculado aos liberais de Floresta (PE), exerceu interinamente o cargo de escrivão do juri  e execuções criminais da comarca de Tacaratu, onde também foi vereador e 3° suplente do Juizado Municipal. Em 1883 , foi nomeado Capitão da 4ª Companhia do 41º  Batalhão de infantaria do Serviço ativo da Guarda Nacional da Paróquia de Nossa Senhora da Saúde, na Comarca de Tacaratu.

Francisco Cavalcante de Albuquerque – Tenente-coronel da Guarda Nacional. Antigo chefe político conservador da comarca de Floresta, foi Juiz suplente e delegado da comarca de Tacaratu. Acusado, pelos índios, de desmandos na Aldeia Pankararu do Brejo dos Padres, assumiu para si a demarcação das terras indígenas.  Tentou fundar um partido Conservador em Floresta, predominantemente liberal,  sob os protesto do Cel. Francisco de Barros do Nascimento. Em 1874  é acusado do assassinato de Maria Francisca de Sá, de Floresta e se refugiou na cidade de Água Branca (AL). Em 1876 voltou para Tacaratu. Em seguida, assumiu o cargo de Juiz pelo afastamento do titular Bacharel Manoel José Mendes Bastos. No ano seguinte, sob a coordenação do novo juiz de direito , Antonio Domingos Pinto Júnior,  compõe a comissão de guarda e distribuição de gênero alimentícios  de Tacaratu para os desvalidos da seca, juntamente com  Francisco Vicente Vaspassos (do partido liberal). Em 1879, fez parte do abaixo assinado em favor da defesa da honra do mesmo juiz, contra o qual havia sido publicada matéria na 2ª pag. do jornal CORREIO DA NOITE, nr. 124, de 11.09.1879. Foi acusado de mandar prender Joaquim Barbosa de Souza Ferraz, chefe liberal, comandante da Guarda Nacional,  para que não interferisse  nas eleições.  (DP 14.07.1880)

Antonio Domingos Pinto Júnior – Em 1870, deixou a função de Promotor da Comarca de Pau Dalho e, indicado pelo partido conservador, tomou posse como deputado provincial de Pernambuco. Em 1874 toma posse como Juiz de Direito da Comarca de Tacaratu, época em que Ignácio Gomes de Carvalho era escrivão interino do juri. Por ocasião da grande seca de 1877,foi presidente da comissão encarregada de agenciar socorros para os indigentes do interior da Província de Pernambuco, da qual fazia parte o Coronel Francisco Cavalcante. Em 1881, toma posse como Juiz de Direito na comarca de Paulo Afonso, na época pertencente à província de Alagoas. Em 1885, é nomeado Chefe de Policia de Pernambuco. É responsável pela relatório policial sobre o desfecho da hecatombe de Jatobá.

Versão oficial

Por último publicamos a versão oficial da tragédia , através do relatório elaborado por Antonio Domingos Pinto Júnior, juiz responsável pela conclusão do inquérito policial.

Relatório Policial 1887 (PDF)

Manuscrito de autoria de Conrado

Manuscrito original de Conrado (PDF)

Paula Francinete Rubens de Menezes

Recife, 03.02.2022

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